A premiação de Lula. E dai?

sexta-feira, 10 de julho de 2009 by , under

O jornalista Paulo Henrique Amorim, da Rede Record e do blog “Conversa Afiada”, acertou na mosca ao informar que o presidente Lula receberia um prêmio dos cobiçados da Unesco, em Paris, mas que a chamada grande Imprensa não daria destaque. De fato, não deu.

“O Globo”, do Rio de Janeiro, ainda deu na primeira página, no alto, mesmo que dando ênfase ao fato de o Greenpeace haver feito um protesto durante a entrega do diploma. Eles pediam maior proteção para a Amazônia, com que concordou o presidente Lula, incorporando- se ao protesto.

Os dois jornalões de São Paulo, no entanto, a “Folha” e o “Estadão”, desconheceram solenemente o prêmio a Lula e deram a notícia nas páginas internas, como uma das tantas. Mas não é uma notícia qualquer, pelo que significa a homenagem. A começar pelo fato de ser o único brasileiro até agora a receber o prêmio. De estrangeiros, já o receberam Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul, Yitzhak Rabin, ex-presidente de Israel, Yasser Arafat, ex-presidente da Autoridade Nacional Palestina, e Jimmy Carter, ex-presidente dos Estados Unidos. E Lula no meio deles.

É isso que parte da elite brasileira não tolera. Ela se sente agredida, ultrajada, e os jornais de certa forma espelham o que pensa essa parte da sociedade - e por ser originário dela, também não admite o sucesso do ex-metalúrgico - e discrimina Lula como pode, num processo de alimentação recíproca, de identificação absoluta, com poucas vezes se viu no país. JK em certa medida também foi vítima desse tipo de comportamento. Jango também, mas aí foi por outra razão. A questão era mais ideológica, embora alimentasse um processo político que deu no golpe. É verdade que, às vezes, o presidente pisa na bola, por assim dizer, e dá chance ao ataque dos adversários, ainda mais num ano pré-eleitoral, em que vai se jogar tudo para derrotarem o candidato de Lula, muito possivelmente a ministra Dilma Rousseff - de quem, aliás, essa mesma mídia pegou no pé com a história dos diplomas de mestrado e doutorado supostamente adulterado não se sabe por quem.

A propósito, não se trata de fazer a defesa de um ou de outra. Mas de tentar entender o que se passa nesse ambiente político-midiá tico até para que se possa também compreender o processo político-eleitoral.Pois bem, aos fatos. Lula recebeu o prêmio Félix Houphouët-Boigny 2008, concedido pela Unesco (organismo das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), presidida pelo ex-secretário de Estado dos Estados Unidos Henry Kissinger, “por sua atuação na promoção da paz da igualdade de direitos”. Esse prêmio, pelo retrospecto, não é uma homenagem qualquer. Pelo que se sabe, um terço das personalidades que o receberam ganharam, depois, o Prêmio Nobel da Paz.

Isso não quer dizer que Lula vai ganhar também. Mas já deu um passo nessa direção, para horror certamente dos que o julgam menos pelos atos de seu Governo do que pela polidez do idioma, o uso das metáforas literariamente pobres e pelas posições políticas que toma, todas ou quase todas na contra-mão do que gostaria a mídia.

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